Ema e Rodolfo

*

Chegaram a um sítio amplo, onde havia árvores cortadas. sentaram-se num tronco derrubado, e Rodolfo pôs-se a falar do seu amor.

Não a amedrontou a princípio com galanteios. Mostrou-se calmo, sério, melancólico.

Ema escutava-o, de cabeça inclinada, e com a ponta do pé ia movendo pedacitos de madeira que juncavam o solo.

Mas a esta frase:

- Pois não é verdade que desde este momento são comuns os nossos destinos?

Respondeu:

- Não! O senhor bem o sabe. É impossível.

E levantou-se para partir. Ele segurou-a pelo pulso. Ema parou. Depois, contemplando-o por momentos com um olhar apaixonado e húmido, disse vivamente:

- Por favor, não falemos mais nisso… Onde estão os cavalos? Devemos regressar.

Rodolfo teve um gesto de cólera e de enfado. Ela repetia:

- Onde estão os cavalos? Onde estão os cavalos?

Então, sorrindo com um sorriso estranho, de olhar fixo e dentes cerrados, ele avançou, abrindo os braços.

Ema recuou toda trémula, balbuciando:

- Oh! O senhor mete-me medo! Que mal me fez! Vamo-nos embora!

- Se assim é preciso, vamo-nos – retorquiu ele, mudando de expressão.

E logo se tornou respeitoso, meigo, tímido. Ema deu-lhe o braço. regressaram pelo mesmo caminho. Rodolfo dizia:

- Que receava? E porquê? Não cheguei a compreender. Enganou-se decerto. A senhora está na minha alma como uma madona no seu pedestal, num lugar alto, sólido, imaculado. Mas preciso de si para viver! Preciso dos seus olhos, da sua voz, do seu pensamento! Seja a minha amiga, a minha irmã, o meu anjo!

E estendia o braço, rodeando-lhe a cintura. Ela tentava frouxamente desprender-se. Rodolfo mantinha-a presa a si, continuando a caminhar.

Ouviram o rumor dos cavalos tusando a erva.

- Por favor! Mais um momento! – disse Rodolfo, – Não vamos já! Fique!

Levou-a para mais longe: chegaram junto de um pequeno lago, onde lentilhas de água refletiam a sua verdura nas pequenas ondas. Nenúfares sem viço mantinham-se imóveis entre os juncos. Ao ruído dos seus passos sobre a erva, rãs saltavam para se esconderem.

- É mal feito! É mal feito! – dizia ela. – Sou louca em dar-lhe ouvidos.

- Porquê?… Ema! Ema!

- Oh! Rodolfo!… – balbuciou lentamente a jovem inclinando-se sobre o seu ombro.

O tecido da amazona roçava pelo veludo do casaco; Ema inclinou para trás o pescoço branco, que se enchia com um suspiro e, desfalecida, não retendo as lágrimas, com um longo frémito, escondendo o rosto abandonou-se.

Desciam as sombras da tarde. O sol, no horizonte, passava por entre os ramos, deslumbrando-lhe a vista. Em volta dela, aqui e além, na folhagem ou no solo, mancham luminosas tremulavam, como colibris que, voando, fossem soltando as penas. O silêncio era completo; das árvores parecia exaltar-se o quer que fosse de suave. Ema sentia o coração bater-lhe fortemente, e o sangue a circular na sua carne como um rio de leite. Ouviu então ao longe, para além da floresta sobre as outras colinas, um grito vago e prolongado, uma voz que se arrastava, e ela escutava, silenciosamente, unindo-se com a música às últimas vibrações dos seus nervos quebrantados. Rodolfo, de charuto nos dentes, consertava com o canivete uma das rédeas que se quebrava.

(…)

Ao ver-se ao espelho, admirou-se do seu rosto. Nunca tivera olhos tão grandes, tão negros, nem duma tal profundidade. O quer que fosse de subtil se espalhara na sua figura, transfigurando-a.

Gustave Flaubert, Madame Bovary

*

Sally e Philip

*

- Queres que vá hoje à noite passear contigo, depois de meter os miúdos na cama?

- Quero.

- Então espera-me na cerca. Vou andando quando estiver livre.

Ficou a esperá-la sob a luz das estrelas, encostado à sebe. Em torno, as amoras silvestres rebentavam em frutos. Da terra, evolava-se o luxurioso perfume da noite e o ar estava subtil e parado. O coração batia-lhe doidamente. Não podia compreender o que lhe acontecera. Associava o amor a gritos e lágrimas veementes, e nada disso havia em Sally. Mas não podia saber que outra coisa, além do amor, a teria levado a entregar-se. Mas amor, paixão por ele? Não surpreenderia se ela escolhe–se o primo, Peter Gann, que era alto, esbelto e forte, com o rosto queimado de sol e as passadas longas e fáceis. que teria ela visto em mim? – perguntava Philip a si próprio. Não sabia se ela o amava da mesma maneira que ele encarava o amor. E contudo… Estava convencido da pureza da rapariga. Tinha uma vaga intuição de que várias coisas se haviam combinado, coisas pelas quais ela se deixara influenciar inconscientemente. As fragrâncias embriagadoras do ar, do lúpulo e da noite, os instintos naturais da mulher, a ternura irresestível, uma afeição em que havia um pouco de mãe e outro pouco de irmã… e dera tudo quanto tinha para dar, porque o coração dela transbordava de caridade.

Ouviu ruído de passos na estrada e uma figura surgiu na escuridão.

- Sally… – murmurou.

Sally parou e aproximou-se da sebe, e com ela vieram os suaves e puros perfumes do campo. Parecia trazer consigo o odor do feno recém-cortado, a fragrância do lúpulo maduro e  frescura da relva nova. Os lábios dela eram macios e cheios contra os seus e aquele belo corpo vigoroso era firma nos seus braços.

- Leite e mel –  disse ele. – Tu és como leite e mel.

Fê-la fechar os olhos e beijou-lhe as pálpebras, primeiro uma e depois a outra.  O braço dela, forte e musculoso, estava nu até ao cotovelo. Philip acariciou-o com a mão, admirando-lhe a beleza: brilhava nas trevas. Sally tinha a pele que Rubens pintara: o seu braço era branco, incrivelmente branco e transparente, e tinha dos lados uma penugem dourada. Era o braço de uma deusa saxónica, mas nenhuma imortal tinha aquela naturalidade deliciosa e doméstica. E Philip pensou num jardim de vivenda, cheios dessas flores caras ao coração de todos os homens, a malva-rosa e a rosa branca e vermelha chamada “York e Lancaster”, o amor-perfeito, a margarida, a espora e a madressilva.

Somerset Maugham, Servidão Humana

*

Elena

“Caminhava com passo rápido e ao cruzar-se com Elena contentou-se em sorrir-lhe, sem se deter, como se estivesse a ser perseguido por algum inimigo. Abrira a camisa, para melhor aproveitar o sol. Reparou que o seu busto de atleta estava já bronzeado. Tinha o rosto vivo e jovem, apesar dos cabelos grisalhos. Os olhos não pareciam bem humanos. O olhar, como que ausente, com algo de violento e autoritário. Elena já vira essa expressão nos chulos de Montmartre, que costumavam estar à esquina das ruas, envoltos nas suas capas e cachecois de cores vivas.

Abstraindo o olhar, aquele homem tinha um ar de aristocrata. Os seus gestos cheios de inocência e de juventude. Bamboleava-se um pouco ao andar, como se tivesse bedido. Parecia ter concentrado toda a sua força no olhar que dirigiu a Elena, sorrindo-lhe depois, muito simpático, e prosseguindo no seu caminho. Elena ficou paralisada com aquele olhar e quase chocada do seu atrevimento. Mas o sorriso era tão inocente que conseguiu desfazer a má impressão e a deixou num estado que ela não era bem capaz de definir. Voltou para trás.

- A menina tem o hábito de retroceder. Começa um passeio e, nisto, resolve arrepiar caminho. Isso é muito mau sinal. É o maior crime que se pode cometer contra a vida. Eu creio na audácia.

- Há várias maneiras de se exprimir audácia – respondeu Elena. – Eu, por mim, arrepio caminho, como diz, mas, uma vez chegada a casa, escrevo um livro que se torna obsessão para os censores.

- É usar mal as suas forças naturais.

- Mas é que nesse caso – tornou Elena -  eu utilizo os meus livros como se fossem dinamite; coloco-a onde quero que haja explosão, e abro caminho através das cinzas. (…)

Os olhos dele, sempre risonhos, não se desviavam dela um só instante. Fixavam-na, atentos às mínimas reações, e agiam sobre ela como um catalisador, deixando-a pregada ao chão, com a sua larga saia enfunada pelo vento como a de uma bailarina, e os cabelos no ar, prestes a levantar voo. Ele estava consciente do poder que Elena tinha de se tornar invisível.  Mas a força dele era maior ainda, pois podia mantê-la assim paralisada diante dele o tempo que bem lhe apetecesse. Só quando ele virou a cabeça é que ela se sentiu novamente livre. Mas já não o bastante para lhe escapar.

Ao fim de três horas de caminho, deixaram-se cair num leito de caruma de pinheiro; avistava-se dali um chalé. Alguém tocava piano.

Ele sorriu-lhe e disse-lhe:

- Era um sítio maravilhoso para passar um dia e uma noite inteira. Não gostava?

Deixava-a fumar tranquilamente, estendida sobre a caruma. Ela não deu resposta; apenas sorriu.

Dirigiram-se ao chalé, onde ele pediu um quarto com refeição – que deveria ser servida  quarto. Dava as suas ordens com toda a calma, não deixando a menor dúvida sobre as suas intenções. O espírito de decisão que mostrava em relação às mais pequenas coisas deu a Elena a impressão de que deveria saber afastar, do mesmo modo, qualquer obstáculo que viesse opor-se aos seus mais íntimos desejos.

Não estava tentada a fazer marcha  atrás, a fugir-lhe. Sentia-se presa de um sentimento de exaltação, pensava que ia finalmente chegar aos píncaros da emoção, sair de uma vez para sempre de si mesma e entregar-se totalmente ao desconhecido. Nem sabia sequer o nome dele, ou ele o dela. A franca intensidade do olhar com que ele a fixava era já de si uma penetração.”

Delta de Vénus, Anais Nin

Procissão de penitência

Passa a procissão entre filas de povo, e quando passa rojam-se pelo chão homens e mulheres, arranham a cara uns, arrepelam-se outros, dão-se bofetões todos, e o bispo vai fazendo sinaizinhos da cruz para este lado e para aquele, enquanto um acólito balouça o incensório. Lisboa cheira mal, cheira a podridão, o incenso dá um sentido à fetidez, o mal é dos corpos, que a alma, essa, é perfumada.

Nas janelas só há mulheres, é esse o costume. Os penitentes vão de grilhões enrolados às pernas, ou suportam sobre os ombros grossas barras de ferro, passando por cima delas os braços como crucificados, ou desferem para as costas chicotadas com as disciplinas feitas de cordões em cujas pontas estão presas bolas de cera dura, armadas de cacos de vidro, e estes que assim se flagelam é que são o melhor da festa porque exibem verdadeiro sangue que lhes corre da lombeira, e clamam estrepitosamente, tanto pelos motivos que a dor lhes dá como de óbvio prazer, que não compreenderíamos se não soubéssemos que alguns têm os seus amores à janela e vão na procissão menos por causa da salvação da alma do que por passados ou prometidos gostos do corpo.

Presas no alto gorro ou na própria disciplina, levam fitinhas de cores, cada um a sua, e se a mulher eleita que à janela anseia de angústia, de piedade pelo ama, dor sofredor, se não também de gozo a que só muito mais tarde aprenderemos a chamar sádico, não souber, pela fisionomia ou pelo vulto, reconhecer o amante na confusão dos penitentes, dos pendões, do povinho derramado em pavores e súplicas, do vozear das ladainhas, do bambear desacertado dos pálios, dos cabeceamentos bruscos das imagens, adivinhará ao menos pela fitinha cor-de-rosa ou verde, ou amarela, lilás, se não vermelha ou cor do céu, é aquele o seu homem e servidor, que lhe está dedicando a vergastada violenta e que, não podendo falar berra como o toiro em cio, mas se às mais mulheres, da rua, e a ela própria, pareceu que faltou vigor ao braço do penitente ou que a vergastada foi em jeito de não abrir lanho na pele e rasgões que cá de cima se vejam, então levanta-se do coro feminil grande assuada, e possessas, frenéticas as mulheres reclamam força no braço, querem ouvir o estralejar dos rabos do chicote que o sangue corra como correu o do Divino Salvador, enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e abrem as coxas segundo o ritmo da excitação e do seu adiantamento. Está o penitente diante da janela da amada, em baixo na rua, e ela olha-o dominante, talvez acompanhada de mãe ou prima ou aia, ou tolerante avó, ou tia azedíssima, mas todas sabendo muito bem o que se passa, por experiência fresca ou recordação remota, que Deus não tem nada que ver com isto, é tudo coisa de fornicação, e provavelmente o espasmo de cima veio em tempo de responder ao espasmo de baixo, o homem de joelhos no chão, desferindo golpes furiosos, já frenéticos, enquanto geme de dor, a mulher arregalando os olhos para o macho derrubado, abrindo a boca para lhe beber o sangue e o resto.

Parou a procissão o tempo bastante para se concluir o acto, o bispo abençoou e santificou, a mulher sente aquele delicioso relaxamento dos membros, o homem passou adiante, vai pensando, aliviadamente, que daqui para a frente não precisará vergastar-se com tanta força, outros o façam para gáudio doutras.

(José Saramago, Memorial do Convento)

A primeira vez

*

*

Natália

*

Foram uns amores singulares, aqueles. No Junho, as cerdeiras punham por toda a veiga uma nota viva, fresca e sorridente. As praganas aloiravam, as cigarras zumbiam, as águas de regadio corriam docemente nas caleiras, e dos verdes maciços de folhas leves e ondulantes, emoldurados no céu, espreitavam a primavera, curiosos, milhares de olhos túmidos e vermelhos. Era domingo. E ele subira por desfastio à velha bical dos Louvados a matar saudades de menino.

- Não dás um ramo, ó Coiso?- perguntou do caminho a rapariga.

- Dou, dou! Anda cá buscá-lo.

Pela voz, pareceu-lhe logo a Natália. Mas só depois de arredar a cabeça de uma pernada é que se confirmou.

- Não estás de caçoada?

- Falo a sério!

Era bonita como só ela. Delgada, maneirinha, branca, e de olhos esverdeados, fazia um homem mudar de cor.

- Olha que aceito!

- E eu que estimo… -Tinha já no chapéu algumas cerejas colhidas, reluzentes, a dizer comei-me.

- Não teimes muito …

- Valha-me Deus! …

A rapariga atravessou então o valado, entrou na leira e chegou-se, risonha.

- Segura lá na abada… -Encandearam os olhos um no outro, ela de avental aberto, ele de rosto afogueado, deram sinal, e a dádiva desceu, generosa e doce.

Vista de cima, a Natália ainda cegava mais a gente. O queixo erguido dava-lhe um ar de criança grande; os seios, repuxados, pareciam outeiros de virgindade; e o resto do corpo, fino, limpo, tinha uma pureza de coisa inteira e guardada.

- Terão bicho?

- Têm agora bicho! Ia-te mesmo dar cerejas com bicho!

Sem querer, a resposta saíra-lhe expressiva demais. O coração agitou-se um pouco, o instinto, acordado, estremeceu, e os olhos, culpados, fugiram-lhe do rosto da moça e fixaram-se sonhadoramente no céu.

- Bota cá mais meia dúzia. Já que comecei…

À medida que se enfarruscava de sumo, a Natália ia-se tomando também num fruto que apetecia colher. Mas recusou-se a vê-la com pensamentos desejosos e atrevidos.

- Segura lá esta pinhoca…

Era um lindo ramo que fora buscar à coroa quase inacessível da árvore. As cerejas, libertas da sombra protectora das folhas, tinham-se dado inteiramente ao sol, deixando-se amadurecer por igual, num abandono quente e ditoso.

- Que lindo! É para que saibas…

Concentraram a atenção um no outro, e de tal modo ficaram fascinados, que se ela não dá um grito de aviso, com a oferta vinha o doador também ao chão.

- Cautela!

- Não há perigo.

No enlevo em que ficara, o desgraçado até se esqueceu do sítio onde estava.

(Miguel Torga, Novos Contos da Montanha)

Os cinco sentidos

*

São belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas,
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!
*
Divina – ai! sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!
*
Respira – n’ aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste.
Sei… não sinto, minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti – de ti!
*
Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede… sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão… mas é de beijos,
É só de ti – de ti!
*
Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de d, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti – em ti!
*
A ti! ai, a ti só os meus sentidos,
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

(Almeida Garrett)

Uma cantora alemã e Sir Ethelred

Na Itália, arrisquei menos do que nos outros locais em que já cantara. Ninguém se preocupa com a conduta de uma mulher solteira. Esta virtude feminina que é tão cultivada no resto da Europa não tem qualquer valor em Itália. É mais exigida a uma mulher casada do que a uma jovem mulher livre. Acho isso muito razoável; quando uma dama, que já conheceu todas as cores do amor, quer casar, os italianos não se ralam com a sua vida passada, não são tão escrupulosos. Nenhum homem conta encontrar uma virgem se a noiva tiver mais de quinze anos. Aos vinte e sete atingi o apogeu da beleza. Todos os que me tinham conhecido em Viena ou em Frankfurt certificavam-me que eu era muito mais bela do que aos vinte e dois anos.

Possuía uma natureza robusta e forte. O meu temperamento era fogoso, mas sabia dominar os desejos quando via que os prazeres do amor me atacavam a saúde. Em Frankfurt tinha passado dois anos de castidade; depois de ter deixado Budapeste, restringi mesmo as minhas relações com Rosa. Esta nunca me provocava. Parecia partilhar todos os meus sentimentos. O nosso acordo era tão perfeito como o de dois gémeos. Eu mantinha um diário. Como poderia se não o tivesse feito, contar-lhe assim a minha vida com todos os pormenores? Ao folheá-lo, vejo que depois da minha ligação com Ferry, que durou dez meses, partilhei, no espaço de cinco anos, sessenta e duas vezes os prazeres homossexuais com Rosa; em média uma vez por mês. Não é isto o non plus ultra da temperança? E durante essa época não concedi um mínimo favor a um homem. Estava de boa saúde, vivia bem, cuidava do meu corpo e não cometia nenhum excesso.

Em Florença, travei conhecimento com um cavalheiro muito interessante, um inglês de que já lhe falei. Não era jovem; contava cinquenta e nove anos. Podia falar de tudo com ele; era um perfeito epicurista. Estudava a natureza humana; as suas opiniões harmonizavam-se com as minhas. Aprendi a conhecer-me melhor graças a ele. Explicou-me muitas coisas de que eu não possuía a chave. Eu sabia há muito que a natureza da mulher é muito diversa da natureza do homem, mas não pudera adivinhar porquê. Ele deu-me as razões fisiológicas e psicológicas. A sua filosofia era simples e clara; tornava-se impossível enfraquecer os seus princípios, baseados na razão. Não era de modo algum cínico; na sociedade tomavam-no por um homem muito moral, embora ele não fingisse qualquer virtude. Fazia-me gentilmente a corte, não para alcançar aquilo que todos os homens anseiam, mas porque era capaz de escutar e de compreender as suas palavras. Contudo. notei que seria muito feliz se me possuísse fisicamente. É natural. Não sou um Narciso feminino, mas tenho consciência das minhas qualidades físicas e espirituais; basta-me olhar para um espelho e comparar a minha beleza com a das outras mulheres.

Entediava-me ouvir o inglês elogiar-me continuamente, sem tentar atar-me o coração ou qualquer outra coisa (e digo coração por eufemismo). A minha galanteria era vã. Ele tinha-me explicado tudo, mas eu queria saber por que era tão platónico comigo.

Há um provérbio que diz: Se a montanha não vai a Maomé, Maomé deve ir à montanha. Sir Ethelred era a montanha e se eu queria obter a minha explicação devia ser o poeta.

- Mas eu permito-lhe tudo, Sir Ethelred… – disse-lhe uma vez. – Por que nunca ultrapassa os limites da mais estrita a amizade quando me faz a corte? O senhor foi um grande Lovelace, como me disse. E até sei que faz mais de uma conquista.

- Engana-se, Madame. Já não faço conquistas – respondeu-me Sir Ethelred. – Não vá julgar que o que um velho troca por ouro sejam conquistas.

(Wilhelmine Schroeder, Memórias de uma Cantora Alemã)

A maior intimidade

*

Imaginou o movimento no interior do apartamento, imaginou os passos dela do quarto para a casa de banho, imaginou a voz do marido falando-lhe ainda baixo como baixo se fala quando a voz apenas acorda, como a sua própria voz lhe falava quando, no fim de cada dia,, nos encontros que tinham desde há meses, ele lhe falava e ela o escutava; uma voz baixa, uma voz que escuta mais do que diz, uma voz baixa que afaga, que compreende, que compreende o sorriso dela, que compreende quando ela lhe diz, tocando-lhe forte nas mãos sempre prontas ao que ela quiser, que são horas de regressar a casa, que não pode ficar mais, que tem de ir, que amanhã, no mesmo lugar, na mesma hora, durante um par de horas… Uma voz sempre baixa, uma voz sempre presente e sempre ausente, eis o que ambos eram um para o outro. Uma voz baixa que ele recordava e que tinha sempre presente, mesmo após ela ter saído deixando-o só no silêncio da sua casa, umas ruas diante daquela onde ele, dentro de um carro parado, agora estava.

O homem dentro do carro imaginou que corria dentro do apartamento dela – um mundo onde não entrava, um mundo para ele interdito, interdito naquele apartamento e interdito por não existir, para si próprio, esse mundo -, imaginou os gestos que sabia existirem ali, os primeiros passos, as primeiras luzes que uma a uma se acendem, a água quente, as mãos do marido dela que humedecem a face, que raspam a barba, as mãos dela que passam no cabelo que ele diria conhecer um a um – mentira que era, afinal, quase verdade, que num breve par de diárias horas a que se resumia o seu comum universo, tudo se observa, tudo bem se observa quando se sabe que nada mais há para além desse par de diárias horas -, as mãos do marido dela a tirar a camisa do roupeiro, e depois a gravata, e as mãos dela que, após a higiene da manhã, dão cor ao próprio rosto e… Decerto poderia reconstituir tudo o que naquele apartamento ocorria, um mundo interdito que ele conhecia com o rigor do que é longamente e rigorosamente antecipado, idealizado e sabido, afinal. Quantas vezes ele imaginara esse mundo com ela? Quantas vezes, ao vê-la compor a roupa e o rosto antes de sair de sua casa após as duas horas do seu frágil comum quotidiano, a não supusera, por instantes, a fazê-lo ambos como se juntos vivessem cada manhã, cada dia?

Era então que entendia que a maior intimidade não residia em conhecer bem e profundamente cada cabelo ou todos os poros do corpo alheio, todos os cabelos e poros onde possam as nossas mãos e a ponta da nossa língua correr; era então que entendia que a maior intimidade não era escutar os sentimentos ocultos que a mais ninguém se confessam e ver o carreiro de lágrimas que se limpam a seguir para não desvendar marcas. Era então que entendia, que bem entendia, que a maior das intimidades reside no quotidiano comum, repetido e sem surpresas ao despertar; reside no facto de não se ter surpresas ao regressar a casa por se saber que somos esperados à hora certa ou que à hora certa esperamos que o outro regresse. Como ontem, como no dia anterior e no outro antes, e no outro, e amanhã e no dia que se segue ao amanhã… Era então que entendia que a maior das intimidades reside em saber que o presente é apenas o futuro que nos foi prometido no passado. Entendia que a maior das intimidades é a que não se busca, que não se surpreende, que não corre, que pergunta displicente como correu o dia ou o que se fará para o jantar, que relembra a data que se não deve esquecer ou o telefonema que é necessário que se faça.

Face a tudo isto, que importância tinham as suas palavras e os seus sussurrados sons no par de horas que ao longo do dia ansiava, ou o saber dos contornos da pele alheia, ou o conhecer a cor de todos os cabelos, ou o desvendar do seu próprio corpo, ou o escutar das mútuas mágoas?

(Sérgio Luís de Carvalho, Os rios da Babilónia)

Baltasar e Blimunda

*

Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra. Veio a esta casa não porque lhe dissessem que viesse, mas Blimunda perguntara-lhe que nome tinha e ele respondera, não era necessária melhor razão.

Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas, e quando ela ferveu deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu aos dois homens, fez tudo isto sem falar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou, há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse a responder a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados. O padre Bartolomeu esperou que Blimunda acabasse de comer da panela as sopas que sobejavam, deitou-lhe a bênção, com ela cobrindo a pessoa, a comida e a colher, o regaço, o lume na lareira, a candeia, a esteira no chão, o punho cortado de Baltasar. Depois saiu.

Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faz como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir a Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes do que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.

Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.

Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro.

(José Saramago, Memorial do Convento)

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